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O teatro na escola

*Katia Lazarini

“Argumentar que a justificativa para a arte-educação reside nas contribuições que pode dar para a utilização do lazer, que auxilia o desenvolvimento da coordenação motora da criança pequena, que fornece a liberação de emoções, é algo que pode ser realizado por uma série de outros campos de estudo da mesma forma. O valor primeiro da arte reside, a meu ver, na contribuição única que traz para a experiência individual e para a compreensão do homem.”

Elliot Eisner

O movimento da Escola Nova iniciado em 1920 e que ganhou força no Brasil a partir da década de 30, inspirava-se nas ideias político-filosóficas de igualdade entre os homens e do direito de todos à educação, defendendo um sistema estatal de ensino público, livre e aberto. Essas implicações, revolucionárias para a época, trouxeram grandes transformações para o setor da educação. A ênfase do trabalho pedagógico passou a ser para o processo de aprendizagem e não mais  para o resultado final. Passou-se a considerar as especificidades do universo infantil, respeitando esse momento de formação do indivíduo.

Esse novo olhar resultou na prática em mudanças curriculares, dentre elas a incorporação de matérias como Educação Física e Educação Artística. Entendia-se agora a necessidade de desenvolver nas crianças não só aquisição dos conteúdos intelectuais, mas também a experimentação de práticas físicas e artísticas que estimulassem a liberação de diferentes emoções e pudessem gerar conhecimento através da vivência. Acreditava-se que, dessa maneira, os alunos poderiam se desenvolver plenamente, exercitando no espaço da escola tradicional diferentes habilidades de diferentes saberes, permitindo assim uma educação mais completa.
Abriu-se dessa forma a brecha pela qual o teatro entrou na escola. Nesse momento, a experiência norteava a prática educacional.

“Experienciar é penetrar no ambiente, é envolver-se total e organicamente com ele. Isso significa envolvimento em todos os níveis: intelectual, físico e intuitivo.”
Viola Spolin

O sistema dos “Jogos Teatrais”, criado por Viola Spolin entre as décadas de 30 e 60, nasceu do trabalho dessa professora norte-americana para o ensino de teatro nas escolas com crianças entre 07 e 14 anos. Esse sistema desmembra a linguagem teatral em uma sequência de jogos, com regras e focos claros, para trabalhar com problemas de encenação. Exige-se aqui que cada jogador seja também um criador. Ao respeitar as regras e resolver os problemas propostos, os participantes propõem soluções dentro do próprio jogo. Sendo assim, esse passa a ser um sistema de ensino de teatro onde se desenvolvem principalmente a autonomia do aluno em relação ao professor, em que o primeiro é chamado a agir e o tomar suas próprias decisões, exercitando suas habilidades físicas, intuitivas e intelectuais.

Os jogos teatrais permitem que professores trabalhem no ambiente escolar com as técnicas e características da linguagem teatral através da experimentação. A vivência dos jogos e a participação em todas as etapas da criação (texto, cena, cenário), faz com que os alunos-atores apreendam as especificidades do fazer teatral. A prática da atividade teatral na escola, que só se tornou possível depois do movimento da Escola Nova, vem ocupando cada vez mais lugar de destaque na educação. Escolas oferecem atualmente o curso de teatro como um diferencial na qualidade do ensino. O teatro na escola deve ser um espaço diferenciado das aulas curriculares, um espaço de liberdade, espontaneidade, de respeito aos limites pessoais e grupais, uma fronteira entre o mundo real e o faz-de-conta. Deve-se estimular as reflexões sobre as práticas, desenvolver o poder de escuta, promover conquistas coletivas e individuais, organizar um discurso cênico e propor a vivência das etapas da criação de uma obra de arte.

Bibliografia

Koudela, Ingrid. Jogos Teatrais. São Paulo: Perspectiva, 5ª edição, 2004.
Spolin,Viola. Improvisação para o Teatro. São Paulo: Perspectiva, 4ª edição, 1998.

*Katia Lazarini é licenciada em Artes Cênicas pela ECA/USP e é professora de teatro do Colégio Módulo.